21 set Pesquisadores vão ao Piauí buscar informações sobre tatu ameaçado de extinção na Caatinga
O tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) é um dos únicos tatus do mundo capazes de se fechar completamente dentro da própria carapaça, mas essa defesa não tem sido suficiente diante da perda de habitat e da pressão humana sobre a Caatinga. Por isso, entre os dias 1º e 6 de setembro, uma equipe de pesquisadores percorreu a região do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, em Buriti dos Montes (PI), para realizar uma expedição científica voltada à conservação da espécie.
A ação reuniu integrantes da Associação Caatinga, veterinárias do Instituto Tamanduá, um fotógrafo e um geógrafo especialista em geoprocessamento e pilotagem de drone. A expedição integra o projeto No Clima da Caatinga, realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Ao longo dos cinco dias de campo, a equipe localizou cinco indivíduos (espécimes) de tatu-bola. De cada animal foram coletadas amostras de sangue, fezes, ectoparasitas (organismos que vivem na superfície externa do corpo de um hospedeiro) e fragmentos de tecido, material que vai compor bancos genéticos usados para orientar as próximas etapas de proteção do tatu-bola no semiárido nordestino.
A expedição percorreu o Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, uma unidade de conservação de 24 mil hectares rica em biodiversidade da Caatinga. O local também preserva sítios arqueológicos com gravuras rupestres que registram ocupações humanas milenares no semiárido.
Além do projeto No Clima da Caatinga e do Instituto Tamanduá, a expedição contou com a colaboração do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, órgão do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), com o objetivo de alimentar um banco de dados genéticos unificado sobre a fauna da Caatinga.
Protocolo de captura
Segundo Samuel Portela, coordenador de conservação da biodiversidade da Associação Caatinga, o trabalho em campo segue um protocolo rígido de biossegurança e bem-estar animal. “Quando encontramos o tatu-bola, ele é contido temporariamente para a coleta de amostras e para a biometria, com medições de cabeça, rabo, altura e peso que ajudam a avaliar o estado de saúde do animal. Depois dos exames, ele é devolvido ao mesmo ponto onde foi encontrado”, explica.
A veterinária Maíra Prestes, do Instituto Tamanduá, explica que o principal objetivo da expedição é reunir amostras genéticas. “A gente coletou sangue, fezes, ectoparasitas e tecido para fazer diversas análises. Essas amostras vão permitir estudos de genética populacional, que fazem parte dos esforços de conservação da espécie conduzidos em parceria com o ICMBio”, diz. Segundo ela, o sangue também é separado em coágulos, soro e amostras que podem ser usados no futuro para detectar doenças relevantes para a espécie na região, enquanto os ectoparasitas, sobretudo carrapatos, ajudam a identificar quais organismos circulam ali.
Manter esse material em banco tem valor que vai além do momento da coleta. “Ter essas amostras guardadas serve tanto para já pesquisar alguns patógenos quanto para o futuro: se um dia houver algum declínio populacional na região e não soubermos a causa, teremos amostra para investigar a presença ou ausência desses patógenos. Essa é a importância de ter esse banco”, afirma Maíra.
As análises genéticas também buscam preencher lacunas de conhecimento sobre uma espécie ainda pouco estudada. Entre os objetivos estão caracterizar a variabilidade genética e a história demográfica do tatu-bola no Piauí, avaliar o parentesco entre diferentes populações e identificar níveis de endogamia (cruzamento entre indivíduos aparentados que reduz a variabilidade genética e aumenta a vulnerabilidade a doenças).
A expedição também busca confirmar o status taxonômico da espécie, ou seja, verificar se a classificação científica atual do tatu-bola corresponde de fato à sua diversidade genética real, e mapear quais populações estão em situação mais crítica de vulnerabilidade genética, para orientar o direcionamento de recursos e ações de proteção.
Para Samuel Portela, o valor desse trabalho está em transformar dados genéticos em decisões concretas de manejo. “Não basta saber que o tatu-bola está ali. Precisamos entender como essas populações se relacionam entre si e quais correm mais risco, para direcionar melhor os recursos e as ações de conservação”, afirma.
Da primeira expedição à criação de um corredor ecológico
A expedição de setembro é a terceira de uma série iniciada há uma década. Em 2016, pesquisadores foram pela primeira vez à região do cânion para identificar áreas históricas de ocorrência do tatu-bola. Os dados reunidos naquele momento embasaram a proposta de criação do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, no Piauí.
Do lado cearense, o mesmo cânion é protegido pelo Parque Estadual do Cânion Cearense do Rio Poti, que fica dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Boqueirão do Rio Poti. Com 63.332,20 hectares, distribuídos entre os municípios de Crateús, Poranga e Ipaporanga, a APA é grande o suficiente para abranger, além do parque cearense, a Reserva Particular do Patrimônio Natural Serra das Almas, reserva particular administrada pela Associação Caatinga.
Juntas, essas quatro unidades de conservação (o parque estadual no Piauí, a APA do Boqueirão do Rio Poti, o parque estadual cearense e a RPPN Serra das Almas) formam um corredor ecológico que resguarda as populações remanescentes do tatu-bola.
Maíra Prestes lembra o significado de retornar à região tantos anos depois. “O Instituto Tamanduá, junto com a Associação Caatinga, esteve ligado à criação da área protegida ali no cânion do Rio Poti por conta do tatu-bola. É interessante voltar e saber que a espécie ainda está ali, resistindo às pressões antrópicas e às estradas que vêm sendo abertas na região”, diz.
Com o parque já criado, a segunda expedição, realizada em 2019, e a atual, a terceira, passaram a focar em compreender a distribuição real da espécie e reunir dados biológicos para apoiar diretamente a implementação das diretrizes de conservação previstas para o tatu-bola.
O que é o PAN TATA
O tatu-bola conta com uma rede oficial de proteção: a espécie é uma das contempladas pelo PAN TATA, o Plano de Ação Nacional para a conservação do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), do tatu-canastra (Priodontes maximus), do tatu-bolinha (Tolypeutes matacus) e do tatu-bola (Tolypeutes tricinctus). O plano é gerido pelo ICMBio.
Planos de Ação Nacional (PAN) são instrumentos de gestão criados pelo governo federal para orientar políticas públicas e priorizar ações de proteção à biodiversidade no Brasil. Cada plano reúne diagnósticos, metas e estratégias voltados a uma espécie ou a um grupo de espécies ameaçadas.
Dessa forma, as três expedições realizadas pela Associação Caatinga estão ligadas ao PAN TATA. A instituição integra o Grupo de Assessoramento Técnico (GAT), comitê responsável por acompanhar e avaliar a execução do plano, e participa do processo desde o primeiro ciclo de conservação do tatu-bola.
Tatu-bola: uma espécie em perigo
O tatu-bola é classificado como “Vulnerável” (VU) na lista da IUCN (em português, UICN, ou União Internacional para a Conservação da Natureza), categoria destinada a espécies que enfrentam risco muito elevado de extinção na natureza em um futuro próximo. Endêmico do Brasil, ocorre exclusivamente no bioma Caatinga e em áreas de transição para o Cerrado, em uma área estimada de 785.066,7 km².
Conforme dados do ICMBio, a distribuição da espécie é heterogênea: embora tenha sido registrada historicamente em 74 municípios do Nordeste, em muitos deles já é considerada extinta, e a presença em estados como Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe hoje é incerta, o que indica uma retração severa em relação à sua área de ocorrência histórica.
Por seu apelo junto ao público, o tatu-bola foi adotado como espécie bandeira das áreas de atuação do projeto No Clima da Caatinga, em Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI). Para Samuel Portela, esse é um conceito usado na biologia da conservação para descrever um animal carismático, capaz de atrair atenção, arrecadar recursos e sensibilizar a sociedade para a proteção de todo o ecossistema ao seu redor. “Quando as pessoas se conectam com o tatu-bola, elas passam a se importar também com a Caatinga como um todo, com a água, com a vegetação e com as outras espécies que dependem desse mesmo ambiente”, afirma.















