As verdadeiras águas da Caatinga

As águas da Caatinga constroem memórias afetivas e comemorações quando aparecem. São inseridas nos costumes dos mais velhos, agricultores e povos originários, que carregam o hábito de prever como vão ser as chuvas, a partir de interpretações da fauna, flora ou do próprio clima durante o ano. Surgem em diversas manifestações artísticas, como na voz de Luiz Gonzaga, quando dizia que o “mandacaru quando ‘fulora’ na seca, é um sinal que a chuva chega no sertão”.

A festa que é feita pela chegada da água não é sem motivo, afinal o clima que predomina na Caatinga é o semiárido, uma das regiões secas mais quentes do planeta. Por não ter as quatro estações do ano bem definidas, as épocas de chuva e frio são associadas ao inverno na Caatinga, enquanto as épocas mais quentes e secas são associadas ao verão.O semiárido possui temperaturas médias anuais em torno de 25º a 30º, com precipitações que costumam alcançar 800 mm por ano, mas podem variar entre 200 mm em períodos mais secos, e mais de 1000 mm em períodos chuvosos. A estação chuvosa é curta e dura de três a seis meses, com chuvas torrenciais e irregulares que se distribuem por quase toda a extensão do bioma.

Na formação dos rios, as nuvens de chuvas que vêm do litoral são detidas pelas serras e as chapadas mais altas, onde a água da chuva se infiltra e escoa, originando nascentes de encosta e pés de serra úmidos. São nessas cabeceiras de serras e chapadas que nascem os pequenos e os grandes rios da Caatinga cearense como o Rio Poti.

Grande parte dos rios da Caatinga são intermitentes, ou seja, diminuem consideravelmente seu volume durante as estações mais secas e correm apenas nos períodos mais chuvosos. Os rios perenes são menos frequentes e permanecem com água corrente durante todo o ano, como o Rio São Francisco que é muito importante para o abastecimento de regiões semiáridas que convivem com a seca extrema. Outros rios também muito conhecidos e importantes são o Parnaíba e o Jaguaribe.

Alguns rios também passam pela “perenização”, processo que realiza a construção de barragens reguladoras da vazão e garantem o escoamento mesmo em épocas de estiagem. O Rio Jaguaribe, maior curso d’água do Ceará, é um exemplo de rio perenizado¹ que possui dois açudes responsáveis por abastecer centenas de municípios cearenses: Orós e Castanhão. A construção de açudes contribui bastante para o fornecimento de água e energia para várias cidades, porém é fundamental a realização de estudos prévios que evitem impactos negativos dessas represas para o ecossistema.

 

O No Clima da Caatinga também trabalha para garantir segurança hídrica para diversas famílias que vivem no semiárido, por meio da distribuição de tecnologias sociais. Essas tecnologias são as cisternas de placa e os sistemas bioágua.

As Cisternas de Placa são grandes reservatórios feitos com placas de cimento, capazes de armazenar até 16 mil litros de água da chuva. Essa quantidade oferta a quantidade de 50 litros de água por dia, o que supre as necessidades de uma família de até cinco pessoas durante oito meses.

Os sistemas bioágua são mecanismos que filtram a água usada na residência e utilizam para irrigação de hortas, plantas e jardins. Essa tecnologia evita o acúmulo de lama nos quintais, prevenindo o aparecimento de mosquitos e garante uma horta sempre verde, pois é capaz de filtrar até 500 litros de água por dia. Também contribui para a geração de renda das famílias, que vendem os alimentos produzidos na horta.

Além disso, o NCC promove atividades de educação ambiental com o intuito de conscientizar sobre a maneira que as ações humanas interferem na natureza e intensificam fenômenos danosos, como o assoreamento.

O que é Assoreamento? 

Assoreamento é o amontoado de detritos, barro e matéria orgânica no fundo de um rio. Geralmente acontece quando o curso d’água não possui vegetação nas margens e as chuvas e ventos levam a camada superficial do solo em direção aos rios. Esse fenômeno pode ocorrer de forma natural, mas o desmatamento é o maior agravante do problema, que pode causar desastres ambientais como: enchentes, desaparecimento de animais e processos erosivos. O reflorestamento das margens de rios e matas ciliares é uma das principais soluções para evitar esse desgaste.

A preservação das águas da Caatinga contribuem para boa convivência com o semiárido, pois para um ambiente que é quente e seco durante a maior parte do ano, a água é sinônimo de alegria e celebração.

O projeto No Clima da Caatinga é realizado pela Associação Caatinga e patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.